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CLARÃO DE AZULAR

Marcio Macedo

 

A brancura da espuma que pintou

Os praieiros pra lá de Algodoal

Ventania nas velas azuis e amarelas

E as estrelas que podemos tocar

 

Galopando no vento me assuntou

Som de zimba de longe a me embalar

E o caboclo que entoa, que a voz nem me chega

Me convida no baque pra brincar

 

Vem verequetear, hoje tem luar

Clarão de azular já tarrafeou

Vem se banhar de flor

Vem carimbolar

Mão pra espalmar, trás o teu tambor

 

Trás o teu olhar para me ver

Trás o teu cabelo pra e cheirar

Trás as flores na blusa, as ondas na saia

E esse rio que se espraia em meu mar

 

Vem verequetear...

 

 

BATUQUE DE ACENDER

Marcio Macedo

Essa noite que chega tão florida

Com um céu enfeitado de brilhantes

Astros soltos e leves como bruma

Como olhares de anjos cintilantes

 

Que me faz logo cedo adormecer

Pra sonhar com a praia do Crispim

Me leva num batuque de acender

Numa noite de festa em Marapanim

 

Vamos bater carimbó na beira do mar

Vamos bater carimbó na beira do mar

 

Ver você vir das águas perfumada

Sorridente de alma colorida

Me dizendo poemas com os olhos

Com encantos da ilha escondida

 

Com sabor de marisco e charangueiro

Essa brisa do  mar me abraçava

A espuma em teus pés eram teus beijos

E uma voz pra ciranda convidava

 

Vamos bater carimbó na beira do mar...

 

 

O CÉU É DISTANTE

Márcio Macedo

O céu é distante

Distante é você

Mas ele é bonito

Parece você

Estrela cadente

Luzente riscou

Na ponta do risco

Eu penso em você

 

Eu penso: no mar tem canção

Tem batuque no mar

No barco vai meu coração

Mandei te buscar

 

Da boca da noite

Floriu o luar

E o vento espalha

A tinta do azul

 

Parece que a roupa do sol

Caiu sobre mim

Eu ardo mirando o farol

Querendo sentir

 

O beijo da índia

A carne de mar

O olhar florido

Parente do céu

O corpo de vento

Que está, não está

Que brinca comigo

E me faz cantar

 

Cantar de bubuia

Mergulhar na água

Que espuma, que salga

De corpo e de alma

Colorir um verso com sabor de amor.

 

 

DESEJO

Márcio Macedo

Não posso cantá-la noutro tom

Não posso mudar a sua sina

Não posso apagar o seu batom

Deixa rebolar cintura fina

 

É a dança que enfeitiça o dançador

E lança no olhar tom de torpor

Liberta o coração deixando em brasa

Asa enfeita o pássaro chamado amor

Exala num perfume qual de flor

Inunda a rosa e o beijo que arrasa

 

Se eu disser que já me envenenou

Me fazendo um louco enfeitiçado

Eu digo a verdade meu senhor

É forte a lembrança do passado

 

A morena era nua no sorrir

Vestida na vontade de florir

Bebendo a lua na cuia da praia

E com a saia atiça o fogo pra subir

O meu balão no incêndio da paixão

E ganha um céu de deuses levados

 

Bate o couro, bate o coração

Canta a sedução, dança à vontade

Negritude, negra tradição

No lundu o desejo é um forte escravo

Em liberdade.

 

 

NEGRO, SOL

Márcio Macedo

Ao luar

Num doce balançar

Eu vi uma sereia

Os pés sujos de areia

Me acenou com a mão

Ai, ai meu coração

Entrei no seu lundu

A noite era um clarão

 

Seu olhar logo me envenenou

Senti-me um curió

Nas mãos de um caçador

Lembrei do Marajó, Princesa, Algodoal...

A preta que me achou

É flor do cafezal

 

E rodei

Ai, ai como eu rodei

Sentindo que a paixão

Era por tudo em mim

A força do olhar

Nós dois na beira mar

Aos toques do tambor

Teu cheiro e teu sabor

 

Embriaga feito tarubá

Rescende teu suor

Teu brilho negro, sol

No cheiro da maré

As curvas da mulher

Os corpos dando um nó

Te faço um cafuné

 

Morena flor

Me leva pro teu mundo

Me laça num segundo

Me ama sobre o mar

Numa canoa

Ai, ai que coisa boa

O vento vai soprando

E a gente se espalhando

Pelo ar

 

 

BANDEIRA DO LUGAR

Márcio Macedo

Carimbó pra mim é sentimento

Não são notas tolas pelo vento

Não é moda por assim dizer

Não é só pegar tambor, bater...

 

Carimbó é sangue

Bandeira do lugar

É a flor do mangue

Joia por se achar

 

Carimbó é quase sofrimento

É rito elevado, é um lamento

Molha o corpo todo, faz arder

Não é só pegar tambor, bater...

 

Carimbó é sol, carimbó é lua

Não é obra minha, nem é sua

 

Carimbó é rio, carimbó é rua

Nessa festa a dama não é nua

 

Carimbó é sina, carimbó é raça

Carimbó não é vinho, é cachaça

 

 

COISAS BELAS PRA DIZER

Márcio Macedo

Amanhã eu vou pro mar

Vou deixar você dormindo

Antes do sol levantar

Vou estar partindo

 

Vou ganhar a imensidão

No meu barco à vela

Vou voltar pra solidão

Ai morena bela

 

Quando vou voltar

Não sei bem dizer

Vida de pescar

Que se há de fazer

 

Se tu me esperar

Posso prometer

Além da vontade

Coisas belas pra dizer

 

 

 

LUAR SERTAJEJO

Márcio Macedo

 

Moça,

Deixa eu dizer que te quero bem no pé da orelha

Mas não vá ficar vermelha

Ouça o tom de cantiga, pense então me diga

Se tu quer dançar

 

Xoteando no salão voando

Vou te abraçando e tu vais gostar

Do meu beijo, queimando em desejo

O luar sertanejo vai iluminar

Esse xote enfeitiçado

A gente esquece que tem gente olhando

Me encarando afiado então me disse tava te esperando

 

E la vai paixão

É todo Junho, é todo São João

Eu não piso nesse festa sem perder  a minha direção

 

 

CIDADE SENHORA

Marcio Macedo

Água cristalina

Praia de ondas calmas

Brisa leve e morna

Leva essa minh’alma

 

Cidade senhora

Tempo dos escravos

Rio que lhe contorna

Serpente de águas

 

E as barcas de peixe

Vêm e ao mar retornam

Palmeiras assistem

Velhas que lhe adornam

 

Braço de oceano

Guarda delicado

Banjo ecoando

Leva o meu recado

 

Onde vão marujas

Onde vão rabecas

Onde o Santo negro

Guarda pães em pétalas

 

Reza ao tempo o cais

Voam garças alvas

Curicas, guarás

Levam minha alma

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